Rodrigo Pasqualucci
7/6/2022

HISTÓRIA DO CRÉDITO: DA ANTIGUIDADE AOS DIAS ATUAIS

Uma jornada no tempo para conhecermos onde tudo começou
Fonte: modificada pelo autor (original: https://br.pinterest.com/pin/397935317047978903/ )

Você já se perguntou de onde exatamente surgiu o conceito de crédito? Será que ele é uma invenção recente?

Nessa série de artigos sobre a HISTÓRIA DO CRÉDITO iniciaremos nossa jornada através dos tempos para contar um pouco sobre sua história, onde tudo começou, e de que maneira o sistema de crédito foi evoluindo até o formato atual.

Para os apaixonados por Ciência de Dados como eu, nos capítulos subsequentes colocaremos mais a “mão na massa” e apresentaremos diferentes tipos de modelos de crédito que a Datarisk já desenvolveu em projetos de consultoria para seus parceiros.

Apertem os cintos porque a aventura só está começando!

O QUE É CRÉDITO ?

“…Crédito (do latim creditu) é a confiança que se tem em algo…” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Crédito)

“…No campo das finanças em particular, é a confiança de que se vai receber de volta o dinheiro emprestado…” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Crédito)

“…Aquele que empresta dinheiro a um indivíduo ou à uma instituição, se chama credor, pois ele “crê” que receberá seu dinheiro de volta…” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Crédito)

De forma simples, o crédito pode ser definido como alguém que empresta dinheiro à outrem, por aCREDITar que tal dívida será honrada. Por isso, a palavra crédito significa confiança, reconhecimento da boa reputação de uma pessoa. Daí a idéia popular que costumamos ouvir: “beltrano têm crédito comigo”.

LINHA DO TEMPO

Apesar de parecer um conceito novo, a oferta de crédito ao consumidor já existe há mais de 5 mil anos! Para se ter uma idéia, muitos anos antes da pontuação do score de crédito se tornar rotineiro, existem evidências históricas de que civilizações ao redor do mundo já praticavam empréstimos, especialmente para a aquisição de propriedades agrícolas.

Dos escritos do Código de Hamurabi às trocas documentadas pelos antigos romanos, o crédito “navegou” por períodos turbulentos e obscuros da história humana, se submeteu à julgamentos morais e reformulações, até o seu boom atual.

Para ajudar o leitor a “mergulhar” no passado, subdividimos as linhas do tempo em tópicos, registrando os eventos mundiais mais importantes e que marcaram a época.

  • CIVILIZAÇÕES ANTIGAS E O CRÉDITO;
  • PREOCUPAÇÕES MORAIS EM RELAÇÃO AOS EMPRÉSTIMOS;
  • NASCIMENTO DO CRÉDITO PARA O CONSUMIDOR MODERNO;
  • ALTA REPENTINA DO CRÉDITO AO CONSUMIDOR;
  • O PRIMEIRO CRÉDITO EM BIG DATA;
  • CRÉDITO MODERNO.

Que a aventura se inicie! Boa leitura! ;)

| CIVILIZAÇÕES ANTIGAS E O CRÉDITO

3.500 a.C. — Suméria (Sumer na língua inglesa): nossa viagem começa na Suméria, local da civilização mais antiga conhecida e ilustrada no mapa abaixo, localizada no extremo sul da Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates.

Essa região mais tarde se tornou a Babilônia que, atualmente, deu lugar para o sul do Iraque, de Bagdá até o Golfo Pérsico. A cidade é considerada como a primeira civilização urbana da história, aproximadamente 89% da população, e a primeira a adotar empréstimos para fins agrícolas.

800 a.C. — Babilônia: Surgem, pela primeira vez, as leis escritas sobre crédito através do Código de Hamurabi na Babilônia; cidade central da civilização babilônica, dentro da Mesopotâmia, situada nas margens do rio Eufrates.

Tal regulamento estabelecia a relação entre credor e devedor, além da porcentagem máxima de juros que poderiam ser cobrados:

  • 33,3% ao ano para empréstimos de grãos;
  • 20% ao ano para empréstimos de prata.

Uma vez definido o crédito, um contrato deveria ser registrado e testemunhado por um funcionário público para sua correta validação.

300 a.C.: aparecem os primeiros registros de garantias para empréstimos tomados. Tanto os babilônios quanto os assírios utilizam garantia hipotecária, adiantamento de depósitos e, em alguns casos, até fianças para realizar uma operação de crédito.

527–565 a.C.: o imperador bizantino Justiniano I- ilustração abaixo- regulamentou no Código de Justiniano, pela primeira vez na história, a atividade dos banqueiros.

Nesse período os banqueiros exerciam empréstimos de recurso próprio, além de guardar dinheiro de terceiros por intermédio de taxas.

50 a.C.: na República de Roma a aquisição de lotes de terras passa a ser feito por meio de crédito e papel, com os dizeres: “…nomina facit, negotium conficit…” (tradução: “…usa-se crédito para completar a compra…”).

400–750 d.C.: a partir de 400 d.C. até meados de 750 d.C começam a surgir os primeiros problemas com a gestão do dinheiro por parte dos banqueiros. O desenvolvimento mercantil acelerado acabou desequilibrando a oferta e a procura por crédito, ou seja, a demanda por empréstimos era superior ao total de dinheiro disponível no mercado. Como solução, os banqueiros passaram a realizar poucos empréstimos com o dinheiro de terceiros, sem qualquer registro (controle regulamentado). Essa saída deu tão certo que eles passaram a obter lucros com os depósitos sob sua custódia e começaram a remunerar os depositantes para estimular a aquisição de mais dinheiro, pondo fim no banqueiro “clássico”.

| PREOCUPAÇÕES MORAIS EM RELAÇÃO AOS EMPRÉSTIMOS

800 d.C.: período marcado como a Idade das Trevas na Europa, após a queda do Império Romano Ocidental a atividade econômica foi interrompida.

Sob o governo de Carlos Magno, Rei dos Lombardos a partir de 774 e Rei dos Francos começando em 768, a Igreja proibiu a cobrança de juros sobre empréstimos alegando heresia (pecado).

800–1300 d.C.: durante o período a Igreja atuou de forma bastante incisiva para reprimir cada vez mais a expansão dos empréstimos a juro. Por essa razão, era comum na época encontrar banqueiros de origem judia atuantes no crédito.

±1500 d.C.: dá-se início a Era dos Descobrimentos. À medida que exploradores e mercadores europeus iniciaram missões comerciais por terras distantes, a necessidade de capital e de crédito aumentavam. Essa demanda por dinheiro foi tão grande que os próprios banqueiros começaram a emprestar o dinheiro deixado sob sua custódia, sem qualquer controle regulamentado. Outro fato interessante do século XVI, e que auxiliou ainda mais na expansão do crédito, foi a possibilidade de remuneração do lucro obtido pelos banqueiros aos depositantes.

Com o aumento dos pedidos de crédito, a carência de um controle regulatório e, principalmente, os casos de falências de alguns banqueiros, as operações de crédito começaram a ficar mais estruturadas e cada vez mais controladas; surgem as primeiras instituições financeiras, dando início ao desaparecimento da profissão de banqueiro “clássico”:

  • Banco San Jorge Genova: localizada na cidade de Gênova, noroeste italiano, com data de fundação em 1407, o banco abriu suas portas para consolidar e gerir a dívida pública, decorrentes de guerras com Veneza pelo domínio comercial e financeiro da região.
  • Banco Monte Dei Paschi di Siena: situado em Siena, na região central da Itália, com abertura datada em 1472. A instituição foi criada para oferecer crédito a “pessoas pobres, miseráveis e necessitadas”. Hoje, além de continuar suas operações, é considerado uma das cinco instituições bancárias mais antigas do mundo.


  • Aparecimento da primeira taxa de juros: na Inglaterra, durante o Parlamento de Henrique VIII, foi promulgado em 1545, o primeiro estatuto que permitia o pagamento de juros, de no máximo 10%, em todos os empréstimos ofertados na época; quaisquer taxas mais altas eram consideradas como usura.
  • Banco della Piazza di Rialto: inaugurado em Veneza, no norte da Itália, em 1587, ele é conceituado como o primeiro banco da República Veneziana.


  • Banco Berenberg: fundado em 1590 pela família Berenberg, originalmente comerciantes de tecidos, com sede em Hamburgo, norte da Alemanha, para expansão dos seus negócios. Em pouco tempo, e através de relações comerciais com diversos países (França, Espanha, Portugal, Itália, Escandinávia e Rússia), a instituição tornou-se uma casa mercantil e um banco mercantil de muito sucesso na época.

1600–1700 d.C.: o termo ‘letra de câmbio’ passa a ser utilizado pela primeira vez. A letra de câmbio permitiu que banqueiros pudessem agilizar o processo de crédito: eles recebiam os depósitos e emitiam uma carta de ordem de pagamento do valor depositado, endereçada a outro banqueiro, estabelecido no local do depositante.

  • Banco Barings: o banco Barings foi fundado em 1762 pelos irmãos Barings, John Baring e Francis Baring. Gradualmente, a instituição financeira foi diversificando seu portfólio de atuação, oferecendo também crédito ao comércio local, principalmente para o lucrativo tráfico de escravos. Este fato enriqueceu, consideravelmente, sua família e trouxe um notório prestígio ao banco.


| NASCIMENTO DO CRÉDITO PARA O CONSUMIDOR MODERNO

1803–1823: no início do século XIX a Inglaterra foi a pioneira na abertura de conta bancária e na emissão de relatório de crédito mensal, registrando pessoas que não pagavam suas dívidas; primeira forma de marcação de “mau pagador”.

1841–1864: período marcado pela fundação da Agência Mercantil, em Nova Iorque (EUA), para sistematizar, através de uma rede de correspondentes, rumores sobre os bens e caráter dos devedores. Às vésperas da Guerra Civil, a agência altera seu registro para RG Dun & Company e passa a rastrear também a credibilidade das empresas quanto a capacidade de honrar suas dívidas.

1899: inauguração da Companhia de Crédito, na cidade de Atlanta (EUA), que inicia os primeiros registros de clientes dignos de crédito; pioneira na marcação de “bom pagador”.

| ALTA REPENTINA DO CRÉDITO AO CONSUMIDOR

1908–1930: o termo “pagamento à prazo” passa a fazer parte do vocabulário de famílias norte-americanas para a aquisição de bens. Com o sucesso do carro da Ford, o famoso modelo T de Henry Ford, a empresa percebeu que o parcelamento do automóvel permitiria a expansão do negócio e a acessibilidade do produto à grande multidão; populariza a idéia de financiamento parcelado.

Percebendo a nova tendência, fábricas de eletrodomésticos também aderem à nova forma de pagamento.

| O PRIMEIRO CRÉDITO EM BIG DATA

1950–1958: época marcada pela existência de contas de crédito rotativo; americanos da classe média já desfrutavam desta modalidade de crédito, apesar das dificuldades em gerir suas dívidas, com a manutenção de vários cartões e diversos pagamentos mensais. Surge, então, o primeiro cartão de débito, emitido pela empresa Diners Club; uma nova possibilidade de crédito ao consumidor aparece.

Em 1955, é implantado o primeiro sistema de “BIG DATA” nos Estados Unidos, para arquivamento maciço e acompanhamento de informações de clientes devedores; para conseguir informações de crédito mais recentes, as agências de crédito vasculhavam jornais locais em busca de mais informações do indivíduo, como casamentos, mortes, prisões, etc.

Em 1958, as primeiras bandeiras de crédito apareceram para oferecer aos americanos crédito geral em compras: American Express e a Mastercard.

1960–1964: período em que a tecnologia limitava-se à telefone, medidor de postagens e armários de arquivo; a Association of Credit Bureaus, nos Estados Unidos, foi a primeira a estudar sobre o uso de computador para a emissão de relatórios de crédito; para se ter uma idéia, as agências de crédito americanas emitiam, em média, mais de 60 milhões de relatórios de crédito por ano.

Década de 1970: o primeiro FCRA (Fair Credit Reporting Act ou, em tradução livre, Lei de Relatório de Crédito Justo) é aprovado, estabelecendo uma nova regulamentação para as agências de informação de crédito.

Década de 80–90: as agências de crédito alcançam cobertura em todo o território norte-americano, sendo introduzido a pontuação FICO, forma de medir a qualidade de crédito de um indivíduo. Forma essa que é introduzida e rapidamente se torna um sistema padrão para aferir a pontuação de crédito (baseada em fatores e dados objetivos). Tal métrica é usada até os dias atuais por agências de relatórios de crédito em todo o mundo.

| CRÉDITO MODERNO

Século XXI: a Era da Informação, ou também conhecida como Era Digital, trouxe transformações importantes para a vida das pessoas e para o dia-a-dia das empresas.

Mas …

  • De que maneira a Era Digital impactou a área de Crédito ? Será que a forma de emprestar dinheiro sofreu mudanças?
  • Como funciona a esteira de crédito moderno no mundo de Big Data e como as companhias podem utilizar Machine Learning nesse processo?
  • Quais são os modelos de crédito que a Datarisk já desenvolveu em seus parceiros? Quais as métricas de validação mais adequadas?

Estas e muitas outras perguntas serão respondidas no nosso próximo capítulo da série “História do Crédito: da antiguidade até os dias atuais”.

Continuaremos nossa saga contextualizando melhor o Crédito Moderno e partiremos então para o nosso primeiro projeto: demonstração passo-a-passo, na linguagem Python, de um dos tipos de modelo de crédito aplicados no mercado: Application Model. Aguarde!

Espero que tenha gostado do artigo! Em caso de dúvida estou à disposição no LinkedIn.

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Até a próxima!

|REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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